Quebra-Cabeças

1.

No primeiro episódio de Undone, um personagem faz um brinde em honra à sua noiva, a quem propôs há pouco tempo e com que se casará nos próximos meses: “À Becca Winograd-Diaz, o amor da minha vida. Quando nós nos encontramos pela primeira vez, foi como se nós fôramos duas peças de quebra-cabeça girando através do universo, e, então, pumba, nós achamos uma ao outro e o quebra-cabeça estava completo”. É cômico, não só porque o noivo é apresentado de maneira derrisória pela protagonista da série, mas porque, como ele evidencia, essa é uma analogia que não se sustenta bem nos pés: “Era um quebra-cabeça de apenas duas peças. Um quebra-cabeça para um bebezinho”. Ressaltemos duas funcionalidades desse aparte: primeiro, ele denuncia a frivolidade do discurso, na medida em que o raciocínio, retomando o texto, encontra sua ingenuidade; segundo, atribui, com efeito, ao casamento, esse aspecto de puzzle da primeira infância.

Assim sendo, os relacionamentos (ou, pelo menos, como outras cenas de Undone levam a pensar, os relacionamentos na medida em que se adequam a formas “institucionalizadas” de vivência) são denunciados no que têm de trivial, não-desafiante. A crítica aí talvez seja análoga a que Raul Seixas retrata em “Ouro de Tolo”:

eu devia estar contente
por ter conseguido tudo o que eu quis
mas confesso, abestalhado,
que eu estou decepcionado,
porque foi tão fácil conseguir
e agora eu me pergunto: “E daí?”

Porém, não é esse o meu tema aqui. O que me impacta nessa fala é que ela perde um dado fundamental: um casamento, as relações em geral, não são quebra-cabeças de duas peças, envolvem um número de partes múltiplo e crescente. Em Undone, isso já se insinua: temos o par de peças representado pelo casal, sim, mas em relação com outras, a mãe, por exemplo, e, como indicado, a protagonista da série, irmã da noiva, que despreza o noivo. Juntamos dois fragmentos com sucesso, mas como essa adequação inicial será composta com as demais? Nesse exemplo, a correlação pode ser ainda simples: são apenas quatro itens. Mas, você sabe, os jogos são de 25, 100, 1000 peças. Familiares — mais próximos, mais distantes; amigos — da infância ou da adolescência, de escolas ou faculdades, do trabalho; vizinhos e conhecidos; filhos. Quais formas se preenchem umas às outras, quais não? E — quem sabe seja essa a questão crucial — que imagem estamos compondo, afinal?

2.

Extraímos de As Esferas do Dragão um excerto que reverbera uma premissa similar: “Um romantismo curado da sua doença podemos testemunhar nos instantes delicados em que eles notam como cirurgia após cirurgia fizeram-se almas gêmeas”. O contexto lá é bem diferente: a assimilação do par aí evocado é feita com muita poda, conformismo e conflito. Seja como for, em ambos os casos descrevem-se composições fraturadas e gradativas.

As imagens utilizadas para fazê-lo têm enraizamentos bem distintos, no entanto. Na figura do puzzle, o que se passa? Cada peça têm uma forma, uma estabilidade; conformamos, esta, àquela, sua correspondente, de maneira a criar uma estabilidade maior. Esse procedimento implica um esclarecer contínuo, um abandono da confusão, e, principalmente, sujeitos estáveis ou de posição fixa. Pelo contrário, as cirurgias indicam alterações, mais ou menos agressivas, da constituição dos sujeitos — e é essa destruição/construção que torna possível a assimilação.

Não obstante, talvez possamos reajustar as duas representações: é só compreender que, se cada sujeito aparece como um quebra-cabeça completado, ele é também peças soltas. Entre duas pessoas, portanto, relações infinitesimais entre as várias frações que formam um e outro. Nesse processo, certas peças podem ser danificas, outras jogadas fora. Será preciso buscar peças avulsas? Como montar uma imagem final a partir das imagens finais da dupla de conjuntos separados? (Eis que assim repomos a questão que fechou a seção anterior, reescrita na forma: que teleologia estamos compondo, afinal?)

3.

Porém, não é esse meu tema aqui. A percepção de que faltavam peças no brinde daquele personagem de Undone me relembra na verdade o quanto a minha relação com L. é matizada pela que tenho com os seus pais e os seus irmãos. As duas talvez não sejam discerníveis uma da outra; a primeira, majoritária, só sendo o que é porque se espraia ou têm pontos de apoio na segunda. Não se separa o namoro do fato de que as crianças me deram (por um tempo) nomes novos (não Kurokun, dessa vez…): Ibi Nani. Não se separa o namoro de um cotidiano e de uma rede de costumes em que foi introduzido, alhures descritos:

Algumas refeições atingem a dignidade de arquétipos. Nesta mesa em redor da qual eu me afeiçoei à família de Shiawase, um comum fora sendo criado novo a novo. (…) Todo o insosso contente do pensado “para sempre”; de tal consistência que até hoje a sua lembrança é sólida o bastante para que eu não só a reproduza como imagem, mas que adentre e respire um pouco do seu hálito, pavio aceso nas sobras da cera.

(Interessante que nesse trecho também se faça uso daquela evolução parcelada: “um comum fora sendo criado novo a novo“. Isso também me leva a pensar que cada pessoa comporta um repertório de situações e de rotinas; circula pelos seus itens, ativa-os — ou apenas armazena. O quebra-cabeças dos relacionamentos, para além dos componentes dos sujeitos e da multidão de coadjuvantes, conta com a sobreposição ou o choque das vivências regulares. Quais formas se preenchem umas às outras, quais não? Talvez por intuição desse esgotamento é que entre as primeiras medidas de uma nova relação esteja agregar momentos e lugares de que só os dois participem. Constroem um no outro refúgio do que são enquadrados a ser.)

Perdesse eu L., subsistiriam para mim I. e V. (e M,, P., L.)?

 

Anísio Silva

Pode persistir de uma pessoa uma só palavra; essa palavra flutuará indiferente às calamidades do tempo, luminosa. Nesta quarta morreu seu Anísio Silva, tio da Letícia. Foi súbito, ele tinha menos de 60 anos, “era novo ainda”. Tivemos contatos esparsos, suficientes porém para conhecer que era alegre e afetuoso. Eu que sou reservado reconheço sempre surpreso a abertura genuína. Seu Anísio tinha uma leveza. Essa semana ouvi um jornalista falando sobre o quanto expressam sobre um indivíduo os seus pequenos gestos. Definidores fundamentais. Pequenos gestos de seu Anísio que ficaram comigo estão todos ligados à sua postura brincalhona, tentativas de integrar e de ser integrado acompanhadas de uma risada fácil. E principalmente o apelido “Tica”, que usava com a sobrinha. Um resíduo de como a tratava na infância? (Minha avó até hoje — ele tem 24 anos — chama meu irmão de “Tetê”). Sempre vi nisso um carinho tão singelo, não podia deixar de imediatamente gostar de alguém que demonstrava gostar de alguém que eu gostava. “Tica” — fica então comigo esse apelido, signo de afeto, nostalgia, filiação.

 

Eduardo

Hoje mesmo lembrei do Eduardo, porque toquei uma música que fizemos juntos, ele a base, eu a melodia, ambos a letra, alternando versos meus e dele, trechos dispersos compilados. Chama-se “Canções Mortas” (e esse adjetivo ressoa pesado porque eu sei a história que de fato estou contando) e começa assim:

troféus empoeirados
não pode mais ver:
válido tentar ou válido esquecer?

Esse era meu. Fala das datas de validade das alegrias. Isso é menos cantado que berrado. É uma música grunge/punk. Abre com um riff em si, mi e fá, seguido do mesmo em bordão. Daí vem um verso do Eduardo:

duendes mudos como famílias destruídas

Hermético, não? Isso vinha de uma dinâmica que um professor nosso propôs em aula. Nós estudamos juntos no ensino médio inteiro, o primeiro ano na mesma sala. A dinâmica tinha uma série de personagens a que devíamos atribuir ações. Depois o professor nos disse o que cada um representava. Eduardo disse que o duende estava mudo. O duende era a família.

o Sol continua a nascer
por não conseguir nada melhor pra fazer

Era meu o niilismo, reforçando o anterior com a ideia de que a vida é uma roda solta (“a carroça de tudo pela estrada de nada”; eu já havia lido “Tabacaria” então?). Lembro que antes de um ensaio da banda acabamos eu e Eduardo por reencenar esse verso. Ele me perguntou, qual seria, então, o sentido de viver? (Um tema que, naturalmente, só pode ser respondido por adolescentes). Eu não podia recuar: eu disse: não há; inventamos e seguimos a invenção. Vez ou outra me arrependo de ter dito isso: às vezes a mentira proporciona mais oxigênio.

poucas chaves para muitas portas
pessoas cruas, frias e mortas

olhos vermelhos, melancólicos
felicidade é alto nível de teor alcoólico

Algumas estrofes parecem contínuas, parece que falam do mesmo. Mas eu vi melancolia nas mesmas pessoas que Eduardo viu frieza e morbidez? Me identificava com a imagem em que há tanto a ter e teremos tão pouco, porém que portas ele e só ele tentou abrir, que chaves tinha e quais não? Esta é uma história sobre a última porta, todos temos a chave dela.

não adianta viver sem propósito
nem tentar ser um apóstolo

Lembro que tínhamos sim muitos propósitos, vindo de bicicleta de Santos a São Vicente, eu no cano, ele se esquivando dos ônibus, depois de termos passado um tempo compondo na casa da minha mãe à época. Tínhamos é claro a vontade da música, Eduardo sempre compôs com muita naturalidade, achava efeitos ótimos com recursos muito simples; era a contraparte do meu outro guitarrista, com mais técnica e também mais ambição formal. Mas lembro principalmente de uma madrugada em que, na avenida da praia, conversamos sobre como os últimos tempos tinham sido ricos, tanta coisa acontecendo que “era difícil absorver” (acho que ele disse isso…). Lembro que ele afirmou que ao ter emprego reservaria parte do salário para doar, o que me impressionou muito.

no final só há um muro
e você se esborracha:
não há túnel que leve pra fora

O final desse último verso é gritado, repetido, três vezes. Por acaso, ao longo de shows e ensaios, tornou-se “me leve pra fora”, o que eu mantive, mesmo que nunca tivesse feito esse pedido de ser levado de lugar algum. Não falo eu na letra toda com certo desprezo? Que me aterra em mim, que me devolve a mim; de mim eu não passo. Mas o Eduardo sempre escreve com um desalento. Então a música atingiu uma verdade tardia. Me leve pra fora,

a morte já não mais me apavora
levaram quem eu mais amava

Versos completamente sinceros, Eduardo tinha perdido o seu maior esteio, a sua mãe morrera, ele morava com avó (era isso? Eu devia lembrar…), ele tentou se matar cortando os pulsos nalgum momento depois. Aqui a nossa separação é abrupta, ele confessa, eu finjo:

toda dor que eu sentia
foi amenizada
por uma dose de morfina

Nunca nem vi morfina; mas era um tema típico do grunge. Eduardo levou o verso à realidade. Primeiro com a maconha, várias vezes ao dia, bem mais do que toda a galera, depois com a cocaína, depois com o crack. Disso não saiu mais, passou a viver na rua, se transformou em uma dessas pessoas pelas quais você sente uma pena burocrática ou só ignora. Hoje me disseram que por comer algo do lixo sofreu uma infecção e, assim, meu irmão morreu.

***

A última vez que tocamos “Canções Mortas” (o nome, aliás, é esse porque compilamos várias letras que não chegaram a ser), Eduardo não ficou na guitarra, sentou à bateria. Estava tão bêbado e/ou fumado (mais ou menos no padrão da turma) que tocou uma linha só do começo ao fim, pá-tu pá-tu pá-tu sem virada nem nada, eu o vejo contando isso e rindo. Ainda temos a gravação desse dia. É a minha preferida dessa música.

***

he’s turned to dust now
one of the chosen few

Eduardo e eu rimamos por muito tempo, e então não mais: é assim. Rimávamos por exemplo por gostar de Sonic Youth.

between the mattress
and a column of hazy faces
I remember every word you said

quite a clear picture:
every word you said

Lembro que dessa música, “NYC Ghosts and Flowers“, ele disse: tem uma nota aqui que só acontece uma vez. Nunca a encontrei…

can you push back the hours?
I hear your voice, I speak your name
among New York city ghosts and flowers

will we meet? to run again?
through New York city ghosts and flowers

Sim, uma nota que só aconteceu uma vez. Eu a encontrei.

 

Aposta Autorrealizada

Domingo de manhã fomos eu e L. à praia e levamos as crianças junto. Nem foi pra nadar nem nada, só pra “dar uma volta” (como a L. diz). Andavam os quarteirões sozinhos e davam a mão para atravessar a rua, o que nos atribuía de imediato responsabilidade, o que implica uma atitude diferenciada em relação ao risco: eu atravessaria com esse ônibus vindo não muito longe, mas considerando que estou com eles é melhor esperar. Chegamos na orla, o V. se enfiava em lugares em que “não devia”, dentro da barraca dos outros, por exemplo, L. inclusive me contou que outro dia estavam em uma loja e ele foi parar na vitrine; tanto ela quanto a I. estavam mais entupidas de normas e tentavam contê-lo, o que não funcionou — em uma dessas eu disse para I.: “Deixa ele, o mundo não é tão cheio de regras assim não”. Ficamos em um parquinho na areia. V. logo se afastou, foi observar um jogo de vôlei na puta que o pariu, entrou na “quadra”, devolveu uma bola, um sujeito lhe ensinou como dar um saque, ele ficou “jogando” por um tempo, querendo ser aceito (repare-se como no mesmo personagem fundem-se aquela transgressão anterior e essa vontade de sentir-se integrado atual, e que essa configuração tem versões contrárias: os dois irmãos assumem papéis inversos em outros contextos); L. estava um pouco tensa com essa atividade, mas eu pude convencê-la, e no fim das contas foi melhor, ele conseguiu a experiência. Inventei nesse contexto uma proposição: “A paternidade precisa garantir que a liberdade não seja uma aberração, uma caricatura de liberdade, ao mesmo tempo mantendo tudo sobre um fundo de segurança”. Me lembrei de True Detective: “Do you know what it means to be a father? It means you are accountable for other people. You are responsible for their lives. Now, past a certain point, there’s a futility in responsibility”. V. se afastou mais porque foi jogar bola com uns “meninos da idade dele”, como I. me contou, e a L. foi olhar. I. me mostrou como conseguia se segurar na barra, flexionar os braços e girar no próprio eixo — a satisfação em saber que o corpo é capaz de algo. Mais tarde, no café, sugeriríamos ao pai deles, seu P., que I. fizesse ginástica olímpica, e, o V. natação, pois essa atividade incluía um metodismo que lhe agradaria (o menino gosta de informação, processa e reprocessa os fatos e histórias que ouve etc). Durante a conversa eu cheguei a uma formulação mais clara de uma ideia que tinha, a saber, de que afetamos as crianças de um modo definitivo, moldando-as segundo nossos desejos, em um processo não totalmente determinístico, que inclui suas resistências e suas sutilezas. Enquanto tratávamos de I. e V., eu comentei que se tratava sumamente de uma aposta, e, com efeito, uma aposta autorrealizada, isto é, construímos um diagnóstico e nós mesmos o pomos em prática (partindo do que seria uma “espontaneidade” de I. pelo esporte, a colocaríamos em uma escola e desenvolveríamos ou forçaríamos o gosto, sem que possamos distinguir qual dos dois processos ocorreu). Por outro lado, não há como escapar do local de privilégio em que estamos quanto às crianças e que é influente por natureza, e do local de miopia em que elas estão, isto é, do fato de que não possuem a priori elementos entre os quais escolher, somos nós quem os vai expor às vivências frente às quais poderão realizar atos de seleção, modificação, expansão. Tenho repetido o mote “criarei meus filhos para a liberdade”, espero descobrir o que isso significa a tempo.

 

Present Tense

A moça que me contratou aqui no instituto vai embora. Decidiu-se por outros voos. Sinto qualquer tristeza. Avalio se o que sinto é a) um vazio simplório pela quebra de rotina; ou b) o temor de que as minhas possibilidades de permanência no emprego agora sejam reduzidas; ou c) tristeza mesmo, gênero aleatório de saudade porque, afinal, nos vimos quase todos os dias nos últimos oito meses. Ontem houve uma festa de despedida, ou eu suponho com razoável grau de evidência que houve uma festa de despedida, e eu não fui convidado, ou não me envolvi o bastante para ser convidado, ou não pareci suficientemente preocupado com qualquer pessoa daqui para ser convidado, ou não havia necessidade de convite, era só por os pés na linha da procissão e a procissão seguiria. Neste instante, como se apenas para formar uma metáfora cujo uso seria inteligente dentro desse texto mas cujo significado exato eu não posso precisar, neste instante (não mais neste instante; enquanto eu escrevia a frase acima ela deixou de realizar o gesto) ela faz a cadeira giratória rodar; uma vez. duas vezes. três vezes. quatro vezes. e a cada vez que gira os cabelos estalam sem som contra o rosto (sem som porque não estou tão perto; sem som porque tenho os fones nos ouvidos e escuto “Present Tense”, do Pearl Jam) e é de certa forma gracioso que ela haja tão brincante e que os fios se deixem ser jogados de um lado para o outro assim tão menina. A. é mineira e tem uma felicidade que eu aprendi a associar a Minas Gerais, porque é a mesma leveza de espírito que eu via nas famílias imensas da parte da minha madrasta, dos natais ou anos novos em que formavam um círculo e rezavam o pai nosso com aquele bizavô ou o que seja conduzindo a reza gigantesca, engolindo o mundo com uma promessa de alegria que jamais se cumprirá, e essa leveza e essa alegria no sorriso de T., por quem eu me apaixonava regularmente a cada dezembro, esse mesmo sorriso e talvez o eco dessa paixão (Não. Absolutamente sem qualquer eco de qualquer paixão. Mas soa bem no texto, não?) no sorriso da moça que me contratou. Eu não queria ter sido convidado ou eu queria ter sido convidado? Precisamente: eu não queria ser convidado, mas, após não ter sido convidado, meu orgulho gostaria de ter sido convidado. Para negar? Mesmo que fosse para negar. Afinal, a alegria abundante, a verdadeira felicidade que buscamos é poder dizer no, man, para as coisas, desprezar oportunidade depois de oportunidade, porque dentro deste casulo as cores são suficientes, dentro deste casulo as cores são suficientes, dentro deste casulo as cores são suficientes. Uma cor é retirada hoje do casulo a partir do exterior; uma nuance de azul apenas; um tom de rosa; e o casulo inteiro soa preto e branco por alguns momentos de sentimento irregular. Não sinto nunca saudade dessa moça. Nunca sinto vontade ou necessidade de almoçar com ela. No entanto, senti a vontade genuína de lhe dar um presente. Genuína porque viva de tal modo que eu posso rodar ao redor dela e cutucá-la com uma lâmina que lá ela permanece, vontade genuína, nem pedindo nem exigindo para ser cumprida; fluindo em direção a ser cumprida.

 

Fluxo

Ela fala sobre os shows do Planeta Terra, para outra pessoa, atrás de mim, nas posições determinadas pelo esquema da sala de trabalho. Reconheço que o adequado seria eu comentar que eu também fui, ela estaria surpresa por um instante, então trocaríamos lembranças de sensações. Ela fala sobre os shows com um entusiasmo que de repente me parece muito cansativo. É um entusiasmo que eu imediatamente teria de manter assim que comentasse que também fui e ela ficasse surpresa por um instante e então trocássemos lembranças de sensações. Ela conta que o vocalista da banda Phoenix pulou na plateia e foi carregado pelas pessoas, buscado pelas pessoas, adorado pelas pessoas (ela não disse isso, ela contou do jeito dela) e eu poderia dizer: ele passou quase do meu lado. Poderia contar que a menina do meu lado disse: claro que aproveitei pra dar uma pegada dele, né? Falei: é a hora. Era a hora. Era o momento sem retorno de seguir o fluxo ou não seguir o fluxo. Mas eu não fiz nada, e teorizei sem demora que não fui ao show para contar a história de ter ido ao show, que a situação se justificava por si mesma; naturalmente, se permanecesse fechada em si como memória indissolúvel ela guardaria ainda valor incólume. Garcia Márquez escreveu uma autobiografia: Viver para Contar. Eu não vivo para contar (mas estou contando coisas neste texto agora). Ela terminou de falar sobre os shows. Me sinto levemente triste por não ter seguido o fluxo, na verdade, principalmente por não ser o tipo de pessoa que segue o fluxo. Há um sorriso na face do mundo para quem o segue. Mas eu já tinha contado essas lembranças de sensações ontem, com entusiasmo, falando do sofrimento de ficar perto da grade sendo esmagado, sendo pressionado para os lados, ouvindo os gritos muitos de perto. Fluindo. Sendo levado pelo fluxo. Há um sorriso de desprezo pelo mundo na face torta de quem se deixa levar pelo fluxo.

Duanne retumba pelos estertores do sujeito

Duanne avança pelos interiores do capitalismo. Dentro do prédio enorme. Após as mesas da recepção. Identidade, permissão do autorizante, câmeras, seguranças. Um pouco antes, o táxi enviado pela empresa. As velhas tudo olhando. Não olhei pra elas, não por empáfia, mais por vergonha: aquilo não era quem eu sou, o excesso. Antes disso, a mulher me dizendo que me daria o boleto e se o táxi era melhor ali ou melhor em casa. Oi? Moça, como é que é — táxi? Eu já me planejava checando no Google Maps onde era. Forjei a cara de alguém que não se impressionaria com tal coisa. Neutramente. Ah, sim, táxi!

Os malditos capitalistas vestidos de urubuzinhos. Entregues aos interesses do grande capital. Fazendo doações. Parecendo pessoas normais, ignominiosamente parecendo pessoas normais. Eu lembro de Clube da Luta. Eu quero explodir tudo isso pro dono do banco ter de comer sopa de feijão com pão duro. Mas se os ternos são só uniformes. Mas se tudo isso é só educação prévia. A classe mais baixa e a classe mais alta são as que usam uniformes, a classe mais baixa e a classe mais alta são as mais intensamente anosognósicas, não poderão jamais reabilitar-se em crítica feroz. E eu que sou, por ora atravessado por esses sonhos de Godard?

Há grande poder nessa frase mental: eu não faço parte disso. Quase que a deixo me governar em silêncio.

Mas não, não mais. Declare-se.